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Setembro Amarelo: quando a prevenção do suicídio vira mercadoria

Foto do escritor: Caroline Ferreira dos Santos
Caroline Ferreira dos Santos
há 1 dia
3 min de leitura

Eu diria que a campanha Setembro Amarelo é chata e hipócrita, mas pra ser justa, não vou generalizar: existem trabalhos sérios, pessoas que atuam na prevenção do suicídio e espaços importantes de informação.

Dito isso, aqui me proponho a uma crítica à lógica dominante que captura a campanha e a transforma em mercadoria, criação de conteúdo e busca de performance de cuidado.

Durante um mês, a sociedade declara que se importa com o suicídio e com a saúde mental. Ao mesmo tempo, mantém e propaga práticas e condições que produzem sofrimento: padrões de beleza inalcançáveis, culto a performances insustentáveis, medicalização como estratégia de padronização e até exigência de um padrão de normalidade inalcançável.

E é justamente aí que a campanha Setembro Amarelo começa a me incomodar.

Ela se tornou uma oportunidade para clínicas e profissionais produzirem conteúdo para captação de pacientes, empresas oferecerem palestras e serviços incorporarem a campanha às suas estratégias de comunicação. Até promoção de terapia e atendimento psiquiátrico acontece nessa onda. O problema aqui é ver o sofrimento virando oportunidade de mercado.

E aqui existe uma questão particularmente incômoda: estamos falando da comercialização de uma campanha cujo objeto é a vida (ou a perda dela).

A própria campanha possui uma logomarca registrada (literalmente), com regras de utilização, instituições responsáveis, parceiros e participação empresarial.

Há inclusive serviços de saúde oferecendo consultas psicológicas e psiquiátricas por valores promocionais durante o mês. Um exemplo é o anúncio de uma consulta psicológica por R$ 25 e uma psiquiátrica por R$ 50, que também deveriam provocar algumas perguntas: que modelo de trabalho permite oferecer um atendimento especializado por esse valor? O que acontece com formação, supervisão, experiência, estrutura e remuneração profissional quando o cuidado entra na lógica da oferta promocional?

Mas existe uma pergunta ainda anterior: essa estratégia funciona?

Promoção não é prevenção.

Os estudos que avaliaram o Setembro Amarelo e outras campanhas de comunicação sobre suicídio não permitem afirmar que campanhas isoladas reduzam as taxas de mortalidade. No Brasil, pesquisas não encontraram mudança significativa na tendência das taxas de suicídio associada à implantação da campanha. Isso não significa que falar sobre o assunto seja inútil, nem que toda iniciativa da campanha seja ineficaz. Significa que visibilidade, por si só, não pode ser confundida com prevenção.

E existe ainda um problema concreto para os serviços públicos: campanhas podem ampliar a procura por ajuda sem que necessariamente exista ampliação correspondente da capacidade de atendimento. Quem trabalha na saúde pública conhece bem o que acontece quando se cria demanda sem criar estrutura para absorvê-la.

Prevenção não se resume a uma campanha anual. Envolve políticas públicas, financiamento, serviços acessíveis, profissionais qualificados e fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial.

Por isso, a questão não é deixar de falar sobre o tema.

É perguntar o que estamos fazendo com essa discussão quando ela passa a funcionar como conteúdo, campanha, produto, serviço e estratégia de marketing.

Saúde e sofrimento não podem ser tratados como produtos.

Se você ou alguém próximo estiver em sofrimento, buscar ajuda é importante. O SUS é uma das portas de entrada para o cuidado em saúde mental, por meio da Atenção Primária, dos CAPS e de outros serviços da Rede de Atenção Psicossocial. Clínicas-escola de psicologia, encontradas em universidades que oferecem o curso, também podem disponibilizar atendimento gratuito ou a valores reduzidos.

Prevenir o suicídio não deveria ser uma campanha de setembro. Deveria ser um compromisso permanente com toda a sociedade.

 
 
 

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Caroline Ferreira dos Santos - Psicóloga - CRP 12/18739 - Gestalt Terapeuta - Florianópolis / SC

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