
O que é Gestalt-terapia? E por que essa abordagem faz sentido ao buscar um psicólogo?
Atualizado: 24 de ago.
Se você reparar bem nas nossas conversas cotidianas, vai notar um fenômeno curioso: passamos uma quantidade imensa de tempo falando sobre a vida, em vez de simplesmente vivê-la. Contamos histórias sobre o passado, justificamos nossas dores com base no que aconteceu há dez anos ou projetamos ansiedades em um futuro que ainda nem existe.
No meio desse barulho que surge no silêncio, dentro das nossas cabeças, a pergunta que frequentemente resta é: onde nós estamos enquanto a nossa vida acontece?
Se você está buscando um psicólogo e se deparou com diferentes abordagens, vou te contar um pouquinho sobre a Gestalt-terapia. Mas saiba que essa abordagem não propõe uma análise intelectualizada ou uma caça científica às causas da sua infelicidade. Ela é, fundamentalmente, um convite para você voltar ao seu presente, habitá-lo e se reconectar com os seus sentidos.
Afinal, o que é a Gestalt-terapia?
Trata-se de uma abordagem de base existencial-fenomenológica. Na prática, isso significa que ela se afasta do modelo médico tradicional, aquele que busca rotular um paciente com um diagnóstico e tratá-lo de forma unilateral, como se o terapeuta fosse o detentor de uma verdade absoluta.
Para nós, Gestalt-terapeutas, os problemas humanos não são defeitos de funcionamento, mas sim interrupções na nossa capacidade natural de nos ajustarmos a um mundo ao qual, por algum motivo, não estamos conseguindo pertencer.
Para compreender essa dinâmica, vale destacar alguns dos pilares fundamentais da abordagem:
O foco no processo (O "Como" em vez do "Porquê"): Enquanto outras abordagens se dedicam a decodificar o conteúdo isolado do passado, a Gestalt-terapia foca na estrutura da experiência presente. O interesse clínico não está em descobrir o motivo de você ter desenvolvido um sintoma, mas sim em observar como você repete esse padrão e impede o seu funcionamento no momento atual, que chamamos de “aqui e agora”.
A ampliação da Awareness: Esse termo em inglês, central na nossa prática, traduz-se como uma tomada de consciência global. É o ato de perceber, simultaneamente, suas sensações corporais, suas emoções e a maneira como você se organiza no ambiente. Em outras palavras, é dar-se conta de como você funciona.
A Fronteira de Contato: Nós não existimos no vácuo; existimos na relação com o outro e com o meio. Por isso, o sofrimento surge justamente quando a nossa fronteira de contato com o mundo é interrompida ou enrijecida.
Por que essa abordagem faz sentido ao buscar um psicólogo?
Escolher um caminho terapêutico é uma decisão íntima. A Gestalt-terapia faz sentido para quem não deseja apenas uma explicação teórica sobre os seus problemas, mas sim uma nova forma de experimentar a própria existência.
1. Um relacionamento horizontal e autêntico (A relação Eu-Tu)
Na clínica gestáltica, o psicólogo não se esconde atrás de uma postura rígida, distante, silenciosa ou superior. O relacionamento é pautado pela horizontalidade. Eu me incluo na sessão como uma pessoa real e uso a minha própria sensibilidade e presença como instrumento de trabalho. Terapeuta e consulente falam a mesma língua, construindo um espaço seguro de troca autêntica e de diálogo verdadeiro.
2. A experiência viva substitui a mera intelectualização
Muitas pessoas chegam ao consultório sabendo exatamente a justificativa para as suas angústias: "Eu ajo assim porque minha mãe era superprotetora". No entanto, a compreensão intelectual, por mais profunda que seja, frequentemente não altera o comportamento disfuncional.
A Gestalt-terapia propõe experimentos ativos. Se o passado emerge, nós o trazemos para o presente: em vez de apenas contar uma história antiga, nós a reexperienciamos no aqui e agora através da palavra ou das sensações, permitindo que situações inacabadas encontrem, finalmente, um fechamento.
3. Devolução da autonomia e da autorresponsabilidade
Aqui, você não é visto como um "paciente" passivo que recebe uma intervenção ou o conselho de um especialista. Você é um colaborador ativo do seu próprio processo. O objetivo não é moldá-lo a um padrão social de normalidade, mas sim libertá-lo de “verdades” absolutas e pré-estabelecidas para que você reconheça o seu próprio modo de viver. A mudança em Gestalt ocorre através da aceitação daquilo que se é; e, a partir desse contato com a realidade nua e crua, o próximo passo de crescimento surge naturalmente.
O direito à própria originalidade
Em uma sociedade contemporânea que tenta a todo custo criar normas para governar nossos corpos, nossos ritmos e nossas formas de viver ou de sofrer, a Gestalt-terapia resgata uma visão profundamente humanista e valorizadora do ser. Ela não busca o desaparecimento compulsivo de um sintoma, mas compreende que esse sintoma é uma linguagem, um apelo legítimo que precisa ser ouvido com respeito antes de ser transformado.
Goldstein, um dos mentores da abordagem, afirmava que o normal não deve ser definido pela adaptação, mas pela capacidade de inventar novas normas.
Ao buscar um Gestalt-terapeuta, você está aceitando um convite para olhar para si mesmo sem os filtros dos julgamentos ditados pelos padrões de normalidade vigentes. É a oportunidade de reintegrar aquelas partes suas que foram silenciadas ou dissociadas ao longo da história para, finalmente, conseguir arranjar-se com o apoio das suas próprias pernas.
Gosto de pensar que a Gestalt nos permite a "loucura", uma loucura no sentido de quebrar os padrões do que é visto como normal. Um espaço seguro onde podemos, sim, ser "diferentes", sem a necessidade de ostentar rótulos ou de nos sentirmos estranhos em um mundo onde, no fundo, ninguém é normal.




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